24/06/2011
O Supremo Tribunal Federal decidiu fixar regras para que o aviso prévio seja proporcional ao tempo de serviço prestado por um trabalhador. O entendimento foi tomado pelos oito ministros que estavam presentes no plenário do tribunal, ao analisar um pedido de quatro funcionários da Vale que foram demitidos. O relator do caso, ministro Gilmar Mendes, julgou procedente o pleito dos trabalhadores. Eles pediam que o Supremo declarasse a omissão do Congresso Nacional em regulamentar o tema, já que o artigo 7º da Constituição Federal estabelece ser o "aviso prévio proporcional ao tempo de serviço". Também requisitaram que o tribunal estipulasse regras a serem seguidas pelas empresas até a edição de uma lei que defina a questão. Todos os ministros concordaram com Mendes, mas não houve consenso sobre o que deve ser aplicado a partir de então. Em consequência, Mendes pediu a suspensão do julgamento para que ele elabore uma sugestão das regras a serem definidas. O ministro disse que existem resoluções da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e projetos de leis que tratam do tema. Alguns ministros chegaram a propor o pagamento de um mês de trabalho para cada três anos trabalhado, outros, para cada seis anos. Não houve, porém, qualquer definição. Por conta disso, sequer ocorreu o pronunciamento da decisão sobre a omissão legislativa. (Folhapress)quarta-feira, 29 de junho de 2011
É preciso elevar gasto com inovação, diz ministro
Ediane Tiago | Para o Valor, de Fortaleza
21/06/2011
Para acelerar a taxa de inovação e ampliar a competitividade da indústria, o Brasil precisa atrair projetos que garantam como contrapartida investimentos em pesquisa e desenvolvimento. "Não dá para ceder incentivo fiscal sem esse retorno. Temos condições de exigir mais de quem quer investir no país", declarou Aloizio Mercadante, ministro da Ciência e Tecnologia, durante a cerimônia de abertura da 11ª Conferência Anpei de Inovação Tecnológica, que termina amanhã em Fortaleza.
A estratégia é fundamental para que o Brasil avance na produção de valor agregado, deixando de ser uma economia com forte base nas commodities. Entre os exemplos, Mercadante avalia a cadeia produtiva do petróleo e chama a exploração em águas profundas de "nosso sputnik", em alusão à declaração que presidente americano Barack Obama fez sobre a importância do programa espacial para a economia dos Estados Unidos.
No Brasil, o desafio está em criar uma cadeia produtiva capaz de atender às demandas tecnológicas do pré-sal. Quanto maior o índice de nacionalização, maiores serão os impactos da exploração em toda a economia, criando empregos e gerando riquezas para o país.
A decisão, segundo ele, é se agiremos como a Venezuela, que não deve deixar uma boa herança para o futuro, ou a Noruega, cuja estratégia para a exploração de petróleo e gás garantiu desenvolvimento econômico e social. "É a nossa poupança para o futuro".
O ministro comentou ainda suas preocupações em relação à proposta para a divisão dos royalties do pré-sal. Com o projeto que está em avaliação, o fundo setorial, que garante os investimentos em pesquisa e desenvolvimento, perderá em torno de R$ 12 bilhões até 2020, nas contas do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). O cálculo tem base no potencial das reservas.
De acordo com Mercadante, o Brasil já possui 20 bilhões de barris certificados, com potencial de ultrapassar os 40 bilhões. A um preço médio de US$ 120 o barril, o total da produção alcançará o patamar de US$ 5 trilhões. "Parte dos lucros tem de ser investida em educação, ciência, tecnologia e inovação. Não temos o direito de repetir o erro de muitas nações petrolíferas", diz.
No encontro, organizado pela Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei), o ministro conclamou os empresários a ampliar os aportes em pesquisa e desenvolvimento. O Brasil investe cerca de 1,19% do PIB em atividades para criação de novos produtos e mais da metade desse orçamento vem do poder público. No Japão, o total alcança 3,44% do PIB, a maior parte com dinheiro da iniciativa privada. O mesmo se repete nos Estados Unidos e na Europa. "A meta é criar uma cultura empresarial inovadora, para que o salto tecnológico aconteça", afirma.
Para os representantes das empresas, o governo também precisa apostar mais, dividindo os riscos e criando instrumentos mais eficientes para financiar as atividades de pesquisa e desenvolvimento. "A política econômica tem de ser direcionada para a inovação. É preciso ousadia para avançar", afirma Carlos Eduardo Calmanovici, presidente da Anpei.
Para Calmanovici, nos encontramos diante de um cenário perigoso: muito à frente de países pouco desenvolvidos na questão da inovação, mas nos descolando de forma perigosa dos outros emergentes, como China e Índia. "Para sermos eficientes, temos de pensar em projetos que envolvam as cadeias produtivas, distribuindo a inovação e gerando conhecimento em todo o país."
Mesmo com um sofisticado sistema para fomento à inovação, o país ainda não consegue trazer competitividade para as cadeias produtivas. "Não dá para inovar sozinho. Mesmo que uma grande empresa aposte muito em pesquisa e desenvolvimento, vai esbarrar na falta de capacitação da cadeia produtiva", avalia Calmanovici.
A Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) possui mais de 60 instrumentos de fomento à inovação, que se transformaram em verdadeiro labirinto burocrático para obtenção de crédito. Para dar mais agilidade ao sistema, o ministério quer transformar a Finep em uma espécie de banco. "A Finep será o grande agente da inovação no Brasil, com linhas diversas e que incluem até capital semente", conta Mercadante, afirmando que nos últimos três meses a entidade desembolsou R$ 1,4 bilhão para o financiamento de projetos.
sexta-feira, 10 de junho de 2011
Teuto aguarda aprovação para vender 15 medicamentos da Pfizer
Laboratórios: Grupo americano comprou 40% da companhia brasileira no fim do ano passado
Vanessa Dezem | De Anápolis (GO)
10/06/2011
Ana Paula Paiva/Valor
Leite, presidente do Teuto, está otimista com a participação do novo sócio: "São muitas as oportunidades que se desenham"
As sinergias existentes entre as duas operações no Brasil ainda não surtiram resultados, mas as companhias estão discutindo os detalhes de como melhor aproveitá-las. "São muitas as oportunidades que se desenham", afirmou o presidente do laboratório Teuto, Marcelo Henriques Leite. Segundo ele, os primeiros efeitos da parceria com a americana deverão ser verificados apenas no fim do segundo semestre, provavelmente nos resultados referentes ao ano completo de 2011.
"Hoje, não temos nenhum resultado do acordo em nosso faturamento. Estamos indo mais rápido do que prevíamos, mas dependemos muito da aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para uma série de determinações", completa.Dentre as sinergias a serem aproveitadas pelo laboratório brasileiro, está a possibilidade de lançar os principais produtos da Pfizer na forma de genéricos, inicialmente com a marca Teuto ou Teuto/White - a marca White é utilizada pela Pfizer nos genéricos de marca. Leite pretende lançar, deste modo, 40 produtos. Da mesma forma, a americana pode colocar sua marca nos genéricos do Teuto.
Outra sinergia interessante vem da complementaridade da atuação das duas empresas nos pontos de venda. Enquanto a Pfizer atua nas grandes farmácias, o Teuto se foca nas pequenas. "Agora os nossos produtos vão para as grandes também", explica Leite. Além disso, o modelo comercial da americana inclui a atuação junto aos médicos, público não atingido pelo laboratório brasileiro.Enquanto trabalha na parceria, o laboratório brasileiro segue com seus investimentos já programados. Ontem a empresa iniciou a produção em sua nova fábrica no complexo industrial de Anápolis, em Goiás. A unidade - onde foram aplicados R$ 20 milhões - mais que triplicará a produção de antibióticos voltados para o consumo hospitalar da companhia.
Leite afirma que esse e os demais novos investimentos da companhia, no entanto, virão somente de sua própria geração de caixa. Isso porque todos os recursos provenientes da aquisição pela Pfizer foram para as mãos do acionista do Teuto.
A cerca de 40 quilômetros de Goiânia, no meio do cerrado, o amplo complexo do laboratório abriga, além da nova fábrica, duas unidades que produzem medicamentos sólidos e pomadas, além de líquidos e injetáveis. O espaço tem ainda mais duas unidades construídas, mas vazias. Os prédios estão esperando uma definição da empresa sobre os novos produtos que vão complementar seu portfólio.
Com faturamento de R$ 324 milhões no ano passado - alta de 15% frente a 2009 - o Teuto tem seus resultados divididos igualmente entre os genéricos para farmácias, genéricos de marca para farmácias e genéricos para hospitais. A ideia agora era entrar no mercado hormonal e de oncologia, entretanto, com a parceria com a multinacional americana, já estão sendo avaliadas novas oportunidades.
O Teuto pode, por exemplo, aproveitar as duas fábricas vazias para entrar no segmento de biológicos, produzir outros tipos de antibióticos ou utilizar os canais de exportação da multinacional americana para criar linhas específicas para vendas no exterior. "Mas a oncologia e os hormônios são prováveis focos", afirmou Leite.
Com capacidade de produção total de 45 milhões de caixas de medicamentos por mês, o laboratório obteve avanço de 50% no faturamento nos quatro primeiros meses do ano, frente ao mesmo período do ano passado. Desse modo, suas projeções de crescimento para 2011, que antes apontavam para 30%, agora superam os 40%.
A repórter viajou a convite do Teuto
Rio Bravo faz parceria com Orteng para investir R$ 1 bilhão em PCHs
Josette Goulart | De São Paulo
09/06/2011
Os investimentos no setor elétrico voltaram a atrair as atenções de fundos de private equity administrado por brasileiros renomados no mercado financeiro. A Rio Bravo, do ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco, fechou nesta semana parceria com o grupo mineiro Orteng para juntos investirem R$ 1 bilhão nos próximos cinco anos na construção de onze pequenas centrais hidrelétricas (PCHs). Na semana passada, a administradora de outro ex-presidente do BC, a Gávea Investimentos, de Armínio Fraga, oficializou a capitalização de R$ 200 milhões na MPX Energia.
O movimento em direção ao setor elétrico também agrega o interesse de fundos estrangeiros, como no caso do Pincus, o maior hedge fund do mundo que aportou, no ano passado, R$ 350 milhões na Omega, empresa da administradora Tarpon Investimentos. No início deste ano, capitalizada, a Omega comprou uma série de projetos de PCHs e eólicas da Ecopart.
A Ersa nasceu em meados dos anos 2000, justamente em um movimento parecido de aposta de administradora de recursos no setor elétrico que acreditavam nas PCHs como oportunidades de grandes retornos. As empresas que nasciam desses investimentos já se credenciavam, inclusive, no mercado de capitais para lançamento de ações. Era o movimento de empresas pré-operacionais na bolsa, a exemplo do que a própria MPX fez. A empresa constrói uma série de usinas termelétricas que ainda não geram receita para a companhia.
Mas desde 2007, o mercado de capitais se fechou para esse tipo de emissão. A própria Ersa foi buscar outro tipo de sócio, como os fundos de pensão, e buscou novas opções de investimentos, como as eólicas. Além disso, os projetos de pequenas centrais hidrelétricas passaram a sofrer com atrasos em concessão de licenciamentos ambientais e a burocracia para aprovação de projetos na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Boa parte da aposta se voltou para o mercado de energia eólica e biomassa.
O fundo de investimentos em participações foi lançado no ano passado e possui um patrimônio de R$ 300 milhões. O regulamento permite investimentos em transmissão e até mesmo em usinas termelétricas, mas será no setor de energias renováveis que os investimentos se concentrarão, segundo Brandão. Neste ano, uma nova captação será feita para elevar o patrimônio a R$ 600 milhões. O fundo foi criado por uma demanda das fundações, que são os principais cotistas do Rio Bravo Energia I.
Essa nova leva de investimentos, principalmente em energias renováveis, não deve parar por aí. Em maio, o BB Votorantim registrou três fundos de investimentos em participações em energias renováveis na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), todos com o objetivo de captar recursos para investir e PCHs, eólicas e biomassa.
O movimento em direção ao setor elétrico também agrega o interesse de fundos estrangeiros, como no caso do Pincus, o maior hedge fund do mundo que aportou, no ano passado, R$ 350 milhões na Omega, empresa da administradora Tarpon Investimentos. No início deste ano, capitalizada, a Omega comprou uma série de projetos de PCHs e eólicas da Ecopart.
Na semana passada, a Gávea Investimentos oficializou aporte de R$ 200 milhões na MPX EnergiaOs diversos anúncios chegam em um momento em que algumas administradoras de recursos já começam a colher os frutos dos investimentos que fizeram há alguns anos. No mês passado, a Ersa, empresa de energia renovável que é capitaneada pelo Pátria Investimento, do ex-diretor do BNDES Octávio Castello Branco anunciou a incorporação da empresa pela CPFL Energia. Nasceu dessa união a CPFL Renováveis, que tem um plano de investimentos de R$ 5 bilhões para os próximos anos e a abertura de capital em bolsa de valores.
A Ersa nasceu em meados dos anos 2000, justamente em um movimento parecido de aposta de administradora de recursos no setor elétrico que acreditavam nas PCHs como oportunidades de grandes retornos. As empresas que nasciam desses investimentos já se credenciavam, inclusive, no mercado de capitais para lançamento de ações. Era o movimento de empresas pré-operacionais na bolsa, a exemplo do que a própria MPX fez. A empresa constrói uma série de usinas termelétricas que ainda não geram receita para a companhia.
Mas desde 2007, o mercado de capitais se fechou para esse tipo de emissão. A própria Ersa foi buscar outro tipo de sócio, como os fundos de pensão, e buscou novas opções de investimentos, como as eólicas. Além disso, os projetos de pequenas centrais hidrelétricas passaram a sofrer com atrasos em concessão de licenciamentos ambientais e a burocracia para aprovação de projetos na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Boa parte da aposta se voltou para o mercado de energia eólica e biomassa.
BB Votorantim registrou na CVM, em maio, três fundos destinados a investir em energia renovávelO sócio e co-fundador da Orteng, Ricardo Vinhas, diz, entretanto, que o mercado para PCHs ainda é atrativo e que os prazos na Aneel começam a ficar mais curtos. Da carteira de onze PCHs que serão transferidas à RBO Energia, que também já nasce como sociedade anônima, duas delas terão a construção iniciada no próximo ano. A estratégia, segundo conta o gestor do fundo Rio Bravo Energia I, Sérgio Brandão, é vender a energia no mercado livre, que dá incentivos aos consumidores que compram o insumo desse tipo de empreendimento.
O fundo de investimentos em participações foi lançado no ano passado e possui um patrimônio de R$ 300 milhões. O regulamento permite investimentos em transmissão e até mesmo em usinas termelétricas, mas será no setor de energias renováveis que os investimentos se concentrarão, segundo Brandão. Neste ano, uma nova captação será feita para elevar o patrimônio a R$ 600 milhões. O fundo foi criado por uma demanda das fundações, que são os principais cotistas do Rio Bravo Energia I.
Essa nova leva de investimentos, principalmente em energias renováveis, não deve parar por aí. Em maio, o BB Votorantim registrou três fundos de investimentos em participações em energias renováveis na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), todos com o objetivo de captar recursos para investir e PCHs, eólicas e biomassa.
Bradesco supera Goldman
O Bradesco ultrapassou o banco americano Goldman Sachs em valor de mercado e agora figura como sexto maior banco da América Latina e Estados Unidos por esse critério. A melhor posição entre as instituições brasileiras, entretanto, continua a ser do Itaú Unibanco, no quinto lugar. O Goldman valia US$ 68,854 bilhões na terça-feira, e o Bradesco, US$ 69,350 bilhões. O Itaú registrou valor de US$ 94,682 bilhões no fechamento do pregão do mesmo dia. Entre os bancos avaliados, o Bradesco foi o único a se valorizar no acumulado do ano, adicionando US$ 3,476 bilhões. Outros bancos brasileiros na lista incluem o Banco do Brasil, em oitavo, e o Santander, em décimo. Os dados são da Economática. (Felipe Marques)
Grupo Votorantim vai tomar US$ 2,65 bilhões de empréstimo
Cristiane Perini Lucchesi | De São Paulo
09/06/2011
Daniel Wainstein / Valor
Ernesto Meyer, diretor gerente do BNP Paribas: para acomodar os bancos europeus, empresas brasileiras deverão aceitar tomar parcelas dos empréstimos externos em euros, não somente em dólar.
A ideia, segundo a companhia, é reduzir a dívida bruta e alongar seu prazo médio de vencimento. Atualmente a empresa tem três operações de pré-pagamento à exportação que somam US$ 1,64 bilhão em andamento. Planeja converter essas operações em uma única, com novas condições e prazos. A operação nova será de US$ 1,15 bilhão e o valor remanescente de US$ 500 milhões será liquidado antecipadamente, planeja a companhia.
Uma parcela de US$ 1,5 bilhão do novo empréstimo virá de uma linha de crédito rotativo, ou, no jargão do mercado externo, um "standby revolving", com prazo de vencimento em cinco anos. Essa operação substituirá a atual linha de US$ 400 milhões, constituída em 2007 e que nunca foi utilizada, diz a Votorantim. Por meio dessa linha, semelhante a um cheque especial, a empresa paga comissão para ficar com os recursos disponíveis, mas só saca quando e se precisar. No "revolving", a empresa pode sacar a linha e pagar, depois sacar de novo, até o prazo de vencimento.
Como a Votorantim está sinalizando aos bancos que também não pretende sacar o US$ 1,5 bilhão em recursos, as instituições financeiras acreditam que a empresa conseguirá pagar prêmios de risco sobre a Libor, a taxa interbancária de Londres, quase tão baixos quanto os pagos pela Vale no "standby" de US$ 3 bilhões tomado no início deste ano. Se sacar um terço da linha, a Vale vai pagar prêmio de 65 pontos básicos, se sacar dois terços, 80 pontos, e acima de dois terços, 95 pontos básicos.
Os prêmios pagos pela Vale, segundo especialistas de bancos, ficaram abaixo do custo de captação de muitos bancos, que estão apostando todas as suas fichas que a empresa não vai mesmo sacar os recursos. Os mesmos spreads agressivos podem acontecer com o Grupo Votorantim, acreditam as instituições financeiras internacionais. Com o cheque especial, a Votorantim pode liberar caixa para investimentos.
Tradicionalmente conservador e pouco alavancado, o grupo ficou em situação complicada quando, em outubro de 2008, o valor do dólar explodiu, e a empresa teve de desmontar opções de venda de dólar acopladas a swaps com verificação periódica que sugavam o seu caixa e totalizariam US$ 6 bilhões, segundo o mercado. As perdas chegaram a R$ 2,2 bilhões, segundo calculou a Moody's.
Foi então que a dívida líquida do Votorantim explodiu e foi a R$ 24,2 bilhões no final de 2008, em relação aos R$ 7,8 bilhões de 2007, um aumento de mais de 200%. A relação entre a dívida e a geração de caixa operacional (ebitda, lucros antes dos juros, impostos, depreciação e amortização) que vinha controlada, entre 1,13 e 1,24 vez desde 2005, chegou a atingir os 3,5.
Em meio à situação de emergência, o grupo vendeu ativos e iniciou um grande processo de "gerenciamento de passivos" que está ainda em processo agora. Desde então, a Votorantim reduziu sua alavancagem, com a relação entre a dívida líquida e o ebitda caindo de 3,58 vezes em 2008 para 3,12 em 2009 e para 2,38 no final do ano passado. A meta da empresa é chegar a 2.
A dívida líquida ficou em um total de R$ 15,5 bilhões no fim de 2010, mas o prazo médio subiu de 3,8 anos em dezembro de 2009 para 5,5 anos no final de 2010. O caixa de R$ 7,8 bilhões no final de 2010 era suficiente para pagar 3,5 anos de dívida.
"O mercado está bem favorável aos tomadores", afirma Samuel Canineu, vice-presidente para sindicalização nas Américas do ING. "Há uma liquidez profunda, com os spreads das empresas caindo em maior velocidade do que os spreads dos bancos que fazem empréstimos externos ao Brasil", conta Ernesto Meyer, coordenador de financiamentos para aquisição e operações sindicalizadas para a América Latina do BNP Paribas. "Há mais oferta de linhas do que demanda das empresas", diz.
Com isso, segundo Meyer, muitos bancos procuram alongar os prazos das transações em busca de algum retorno. "Há muitos empréstimos para grandes corporações que têm passado o prazo de dez anos", diz Meyer. Segundo ele, uma tendência daqui para a frente no mercado de empréstimos sindicalizados, para acomodar os bancos europeus nas transações, deverá ser de as empresas brasileiras aceitarem tomar parcelas em euros, não só em dólar. "É uma forma de não pagar o custo do swap embutido no custo do empréstimo", diz o executivo do BNP.
A Marfrig também está com transação de pré-pagamento à exportação no mercado, de total de mais de US$ 200 milhões, de prazo de cinco anos, sob a liderança do Deutsche Bank e do ING. Em três semanas no mercado, a companhia já obteve esse total.
País do "gato", Índia perde até 1/3 da energia que gera
Andrew MacAskill e Kartikay Mehrotra | Bloomberg, de Nova Déli
09/06/2011
Fios de alta tensão se amontoam em rua de Nova Déli; governo indiano quer investir US$ 400 bilhões em eletricidade
"A fiação está bem ali, é realmente muito fácil de pegar", diz Sikander, de 26 anos, que usa apenas um nome e ganha menos de US$ 2 por dia limpando as orelhas das pessoas nas ruas da capital indiana. "Você precisa ser muito cuidadoso quando chove, porque pode ser eletrocutado se os fios encostarem uns nos outros."
Cerca de um terço dos 174 GW de eletricidade gerados pela Índia anualmente é roubado ou se dissipa nos condutores e equipamentos de transmissão que formam a rede de distribuição de energia do país, segundo informou o secretário de Energia da Índia, P. Uma Shankar. Isso é mais do que em qualquer outro país, segundo um relatório publicado em 2010 por analistas da Deloitte, que estimava as perdas da Índia em 21%. Na China, a taxa foi de 8%.
O roubo de uma quantidade de energia quase suficiente para suprir o Estado da Califórnia, nos EUA, por um ano, diminui a receita anual das companhias distribuidoras de energia da Índia em US$ 16 bilhões e reduz a produção industrial em 1,2%, num país cujo PIB é de US$ 1,3 trilhão, disse a Comissão de Planejamento da Índia.
As perdas prejudicam o esforço de levar eletricidade para cerca de 400 milhões de pessoas e contribui para o que a Autoridade Central de Eletricidade afirma ser uma diferença de 10% no atendimento do pico de demanda por energia.
Agora, o governo está pedindo às empresas, inclusive à Reliance Power e à Tata Power, que administrem uma parcela maior da rede que conecta residências, escritórios e fábricas às subestações. O objetivo, diz Shankar, é cortar pela metade as perdas até 2013, num país onde os apagões deixam os indianos suando às bicas no verão, sob temperaturas de mais de 46ºC.
"O roubo de eletricidade prejudica não só o setor de energia, mas toda a economia indiana", diz Michael Parker, analista da corretora Sanford C. Bernstein , de Hong Kong. "Manter as luzes acesas é fundamental para o crescimento econômico. A incapacidade de fazer prejudica o desempenho."
Subsidiárias da Tata Power e da Reliance Power já reduziram em dois terços a quantidade de energia roubada da rede de distribuição de Nova Déli, que elas administram em conjunto desde 2002. Isso não as tornou lucrativas. A BSES Rajdhani Power, unidade da Reliance Power que atende as zonas oeste e sul da capital, diz que perde US$ 2 milhões por dia por causa do roubo de energia e das baixas tarifas impostas pelo governo.
As ações da Reliance Power, controlada pelo bilionário Anil Ambani, acumulam perda de 25% no ano, em meio a uma investigação de irregularidade num negócio.
A queda de 9,8% da ação da Tata Power no período foi igual à desvalorização do índice referencial de ações da Índia. "Se os conselhos estaduais de eletricidade ou as companhias de distribuição privadas não conseguirem recuperar o dinheiro, o resultado será que elas acabarão dando calote em empréstimos", disse Gopal Saxena, presidente-executivo da BSES Rajdhani. "A credibilidade de todo o setor será posta em dúvida e novos projetos não serão aprovados."
A fiscalização foi reforçada na capital e os "trapaceiros" estão recebendo propostas de anistia se concordarem em instalar novos medidores, mais difíceis de serem violados. Mesmo assim, os "gatos" brigam por espaço nos postes que levam eletricidade para os barracos do bairro de East Patel Nagar, onde Sikander mora, competindo por espaço com o esgoto a céu aberto e pilhas de lixo.
"Numa companhia controlada pelo governo pode haver corrupção, o que interfere na tarefa de reduzir os roubos", uma vez que funcionários aceitam subornos para não delatar os ladrões, diz Shankar, o secretário de Energia. "As companhias privadas tendem a ter uma governança muito melhor e possuem metas bem claras."
Hoje, as comissões estatais de eletricidade distribuem 85% da energia gerada pela Índia, 19 anos depois que a primeira empresa privada, uma subsidiária da extinta Enron, assumiu a distribuição no Estado de Maharashtra, no oeste do país, onde fica a cidade de Mumbai. As redes de distribuição de cidades como Gurgaon, nos arredores de Nova Déli, e Nagpur poderão ser transferidas para companhias privadas no ano que vem.
"O governo indica claramente que a privatização é o único modo de acabar com os prejuízos e levar as empresas a um estágio de viabilidade financeira", diz Saxena.
Empresas como a Lanco Infratech e Torrent Power dizem que pretendem fazer lances pelos contratos de leasing, que as permitirão operar sistemas de distribuição sem a necessidade de comprar terras e infraestrutura. Esse modelo já é usado na cidade de Agra, 200 quilômetros ao sul de Nova Déli.
O primeiro-ministro, Manmohan Singh, está tentando conseguir US$ 400 bilhões em investimentos para o setor energético nos próximos cinco anos, enquanto fixa uma meta de produção adicional de 120 GW até 2017. A Índia não cumpre nenhuma meta anual de aumento da capacidade de produção de energia desde 1951.
A escassez de energia pode prejudicar o crescimento da economia indiana, a terceira maior da Ásia, que segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI) deverá ser de 8,2% em 2011, contra os 10,4% registrados em 2010.
A falta de eletricidade significa que o trabalho de Akbar Basha, 30, fiscal da BSES Rajdhani, que patrulha partes da zona oeste de Nova Déli, é necessário para manter a iluminação e os aparelhos de ar-condicionado em operação.
Basha usa programas de computador que detectam padrões irregulares no uso da energia. "Ninguém admite que está roubando. Há sempre uma desculpa", diz ele. "As pessoas são muito espertas e sempre surgem com novas tecnologias. É um jogo constante de gato e rato."
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